3.10.2011
Meu Bacanal
 
"Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé, Baco!"

Mais uma vez o Arlequim retorna ao seu palco preferido, ansioso por sabores que somente lá ele pode sentir. Está tudo do jeito que ele se lembra, na memória que faz questão de guardar, independente das garrafas de Sapupara e Pau do Índio que ele vai deixando pelas ladeiras - onde vez por outra também encontra algum sucesso. Mas ali ele está tão em casa que nem precisa de muito pra cantar asneiras e fazer questão de repetir para todos ao seu redor o quanto está feliz. Talvez pela ansiedade de compartilhar essa alegria que é demais pra uma pessoa só. Talvez simplesmente porque bêbados são repetitivos. Seja qual for a razão (ou falta dela), o Arlequim faz respeitosa reverência à Olinda e Olinda faz reverência de volta. Cada uma das casinhas coloridas sorri para ele, dizendo que sentiu falta do Rei no meio daquela gente tão modesta. Evoé, Olinda! Evoé, Baco!


"Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé, Momo!"

Começou o sobe-e-desce de ladeira e o Arlequim está em cada cortejo de maracatu, misturando uma ou outra lágrima com suor, pra disfarçar a pieguice e não ser confundido com Pierrot. Mas o Arlequim não consegue evitar o choro quando vê aquele maracatu puxado por um caboclo de lança que na verdade era uma cabocla. Linda. Aquele pomposo, com rei, rainha e escravos. Aquele dos homens fortes que desfilaram à noite e tiveram que lidar com um bêbado já sem qualquer sentido, que acreditou ser uma excelente ideia roubar uma zabumba da mão do zabumbeiro no meio do bloco. Como ousa atrapalhar o desfile sagrado das zabumbas, seu idiota? A raiva durou alguns segundos, mas passou levada por um garotinho de uns 7 anos que vinha logo em seguida com seu mini-tamborim, mostrando que paixão é de nascença. Enquanto isso, uma vovó dançando numa janela era aplaudida pela multidão de admiradores da sua alegria, que continua intacta depois de uns... eu chutaria uns 80 carnavais. Evoé vovó!

Às vezes a poesia chorosa da ladeira abre alas pra irreverência. É nessa hora que passa o bloco da Turma do Rivotril (precisa explicar qual é a graça?). A troça Mulher na Vara que vem carregando uma mulher... em cima duma vara. O bloco da Mesa, que traz lá no alto - e com certo desequilíbrio - uma mesa de ferro e duas cadeiras, com um boneco de pano em uma delas e um folião de verdade em outra. Passam também os mamulengos cada vez mais surpreendentes: esse ano a Dilma subiu ladeira seguida por Barack Obama, Michael Jackson, Gene Simons com a língua de fora, Luciano Hulk e Jô Soares. Passa a menina fantasiada de casa. O cara azul de cotonete. O famoso Homem-Aranha que nunca sei se é o mesmo de todos os anos, mas vamos supor que seja porque assim é mais divertido. Os caras com a tradicional fantasia de banheiro feminino, que é manjada mas não perde a graça. O golfinho que jorra água. O ruivo lindo de Branca de Neve que joga serpentina.

No meio desses, o Arlequim desfilou dois dias à paisana, sendo reconhecido apenas por aqueles realmente íntimos do teatro e das tradições da fanfarra. Mas dois dias houveram que ele se fantasiou de pavão e saiu pavoneando ladeira acima ladeira abaixo. Foi a alegria das bichas da 13 de Maio onde, inclusive, encontrou um Ney Matogrosso que lhe cantou muito legitimamente um trecho de Pavão Misterioso. Também foi o motivo de sorrisos de crianças de toda parte e de todos os outros a favor do inusitado. Incontáveis vezes desconhecidos o pararam pra tirar fotos. E ele posava, se achando o máximo. Nada mais justo: seja qual for a fantasia, Arlequim é a celebridade do Carnaval. Evoé, Olinda! Evoé, Momo!


"Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé, Vênus!"

Mas nem todas as troças e zabumbas de Olinda se comparam à alegria de estar com a Colombina. O sorriso da Colombina, paciente com a euforia descabida de um palhaço maluco. A disposição da Colombina, dormindo pouco e subindo a ladeira mais alta de Olinda pra ouvir histórias de carnavais passados. A contradição da Colombina, que consegue ser desastrada como um Polichinelo e ao mesmo tempo delicada como uma Pierrete.

A melhor companheira com o melhor dos humores, o melhor dos abraços, a melhor das piadas. Aqueles olhões de descobridora - sempre achando tudo lindo e achando muita graça em tudo - são a maior saudade que o Carnaval deixou. Evoé, Colombina! Evoé, Venus!

(Trechos surrupiados da poesia Bacanal, de Manuel Bandeira)
posted by Arlequina @ 12:31 PM  
 



1 Comments:
  • At 2:25 PM, Blogger Fá Nascimento said…

    "Mas o Arlequim não consegue evitar o choro quando vê aquele maracatu puxado por um caboclo de lança que na verdade era uma cabocla. Linda. Aquele pomposo, com rei, rainha e escravos. Aquele dos homens fortes que desfilaram à noite.... "

    Coisa linda.
    Acabei de me odiar por achar que 'meu tempo' de ir para Olinda já passou.

     
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