Se 2009 tivesse sido perfeito, ele não teria começado dia primeiro de janeiro com uma ressaca desgraçada e a vaga lembrança da festa de Reveillon mais deprimente da minha vida. Não. Ele teria começado em fevereiro, no Mardi Gras, e eu já estaria de cabelo vermelho novamente usando a fantasia de arlequina mais bonita que já tive. A festa de reveillon teria sido na Bourbon Street, muitas pessoas me jogariam colares roxos – mesmo sem pagar peitinho! – eu mochilaria sozinha pela primeira vez, seria hospedada por desconhecidos, descobriria a canadense mais fofinha do mundo e ficaríamos super amigas pra sempre. Aí eu teria acordado em Hollywood indo pro Universal Studios Park andar em montanhas russas virtuais onde escaravelhos egípcios passariam no meu rosto e uma Maggie Simpson gigante me engoliria. Quando saísse do parque, pegaria um táxi pra casa da Miranda no Brooklin, e lá estariam todos aqueles novaiorquinos malucos e bipolares me esperando pra comemorar meu aniversário na Rubulad Party, juntamente com um alemão tímido que me daria de presente o meu próprio filme do Woody Allen na cidade mais espetacular do mundo. E quando eu estivesse andando por aquelas ruas pensando seriamente em nunca mais sair dali, passaria por um bar brasileiro e ouviria uma roda de samba tocando Ai que Saudades da Amélia e me lembraria que já era hora de voltar pra casa.
Então eu deixaria Miranda chorando com dor no coração, mas pegaria um metrô na Smith Station e desceria na Estação Glória, onde estariam me esperando Júlia e Loli com uma Brahma numa mão e uma caipirinha na outra. De lá, Loli já me arrastaria pro Democráticos, onde Iolanda apareceria vinda de São Paulo toda sorridente, apesar de não gostar de samba. Como ninguém é mutante e descansar é preciso, a gente daria uma paradinha pra ver o pôr-do-sol olhando a Baía de Guanabara no Barurca e então eu ligaria pra Jú e correria pro The Maze, porque o jazz já estaria começando e a Guanabara também é linda vista de noite e de cima, do alto da Tavares Bastos, com um jazz gostoso tocando no fundo. Aí eu me distrairia conversando com um americano LINDO sobre como o Brasil é milhões de vezes melhor que o país bizarro dele e quase perderia a hora pra encontrar com Daniel que já teria chegado em Copa e poderia estar assustado porque era a primeira vez que vinha ao Rio. Mas antes que ele voltasse pra Aracaju, faria questão de levá-lo a Rocha Miranda. E lá estaria minha família que eu amo e sempre está lá, com um integrante novo de dois anos megafofinho e chorão que me detesta, mas que eu amo mesmo assim (talvez até mais ainda por causa disso).
E apesar da festa de família estar muito boa, infelizmente eu teria que correr pro Maracanã pra ver o jogo comemorativo dos 111 anos que o Vasco não ganha um título de aniversário do Vasco, muito contra a minha vontade, mas sabendo que o sacrifício valeria a pena porque Anderson teria vindo de São Paulo pra ver essa porcaria de jogo e eu, que estava morrendo de saudade dele, o veria muito, muito feliz. E ele iria embora me lembrando que já era segunda-feira e eu começaria o meu curso de Redação na ESPM que me daria a certeza de que é isso mesmo que eu quero ser, custe o que custar, demore o tempo que for. E pra me provar que no mundo da Publicidade boêmios também podem ser bem sucedidos, o Anderson me apresentaria virtualmente a versão masculina da minha Pomba Gira, que acabaria se tornando a alegria do meu MSN. Começaríamos até a conversar sobre um possível encontro na vida real, mas isso teria que esperar porque meu irmão entraria no quarto dizendo que ganhamos uma viagem com tudo pago pra Buenos Aires e imediatamente eu botaria a mochila nas costas de novo e partiria pras pracinhas lindas de Recoleta, sentindo aquele frio gostoso, vendo aquela gente linda, tomando vinho tinto e me sentindo chique.
Até pensaria em ficar em Buenos Aires pra sempre, mas já tinha assumido o compromisso de levar meu paulista amigo virtual pro Maracanã pra ver o São Paulo perder do Flamengo, então voltaria pro Rio. Ele quase que ficaria triste com o resultado do jogo, mas, saindo de lá, embarcaríamos pra feijoada da Portela e depois esticaríamos pra Lapa e ele voltaria pra SP mais carioca que nunca, quase torcendo pro Flamengo, mesmo sem admitir.
E já que eu estaria usando vermelho e preto mesmo, depois de deixar o paulista na rodoviária iria pra Gávea com a Ju ver a final do Brasileirão, tendo o imenso prazer de descobrir que, quando o Flamengo vira Hexa, é carnaval no Rio e a cidade inteira se transforma no mesmo bloco rubro-negro festejando alegremente pelas ruas.
Mas, mesmo cariocando desse jeito, sentiria tanta falta de São Paulo que da Gávea pegaria um ônibus direto pra rua dos Pinheiros pra ver meus indies lindos que dizem “meu” e “nuooossa” e dar a oportunidade pro paulista ex-amigo-virtual-agora-real de retribuir a ciceroneagem, me levando pra Vila Madalena, Augusta, ensaio da Vai-vai, Museu do Futebol, etc etc. Mas Reveillon na Paulista é baixo-astral demais, portanto precisaria voltar pro Rio.
Então quando chegasse ao Rio pra ver o ano acabar com a queima de fogos mais famosa do mundo, encontraria meu casal preferido que veio de carro de Aracaju pra me dar um abraço de feliz ano novo, e assim começaria 2010 extraordinariamente feliz.
Se 2009 tivesse sido perfeito, ele teria sido assim, desse jeito, sem nenhuma brechinha pro vazio que me causa a estranha sensação de que estou parada no mesmo lugar, o meu tempo está passando e eu desperdiço meus dias sem fazer absolutamente nada.
Tenho um sobrinho de 2 anos. Depois dele, a pessoa mais nova da minha família é meu irmão, de 23. Chego em casa hoje carregando um embrulho bem grande com formato indefinido. Era um joão-bobo, daqueles que eu nem sabia que ainda faziam.
Passo pela cozinha.
Minha mãe: O que é isso??
Eu: Um joão-bobo.
Minha mãe: Pra quem?
Eu: Como assim pra quem? Pra quem eu poderia dar um joão-bobo de natal??
Minha mãe: Sei lá, vindo de você eu não duvido de nada...
Sigo caminho até a sala.
Minha prima: Nossa, que grande! O que é isso???
Eu: Um joão-bobo.
Minha prima: Pra quem?
Eu: Mas será possível??? Quem mais nessa casa além do Bochecholhudo poderia ganhar um joão-bobo??
Minha prima: Sei lá, eu espero qualquer coisas dessas suas piadas estranhas...
Caso ainda esteja em tempo, gostaria de pedir um pouco de crédito nesse Natal. Pelo visto é o que eu mais to precisando aqui em casa.
Ela não é bonita, mas isso não é fundamental. Depois de dois segundos, ninguém percebe. Porque ela nasceu com o peito pra fora, a barriga pra dentro e a espinha ereta. Dizem até que já engatinhava assim. E dizem que, desde que começou a falar, ela sempre soube dizer por favor, obrigada e com licença, e sempre soube exatamente o momento certo de dizer. Ela sabe sorrir pra quem deve sorrir e olhar de cima quem merece ser olhado de cima. O critério não é posição social. Aliás, ela não fala sobre dinheiro, mas todos podem jurar que ela é rica, riquíssima, herdeira de uma grande fortuna, com príncipes e reis pendurados em sua árvore genealógica. Ela pode chegar descalça de pé sujo mas, quando sai, todos juram que ela estava de salto alto (e não estava?). Nas festas, ela fica quase a noite inteira em um único lugar, não circula muito. Não que ela seja tímida ou se esconda. Mas é porque aquele é o lugar dela e ela sabe muito bem que ponto é esse. Mesmo assim, é impossível não notar a sua presença ali. Porque quando ela fala - e não precisa falar alto - todos calam a boca.
E ela levanta o copo de cerveja como se brindasse com Chandon, come cachorro quente como se comesse foie gras e se suja quase de propósito só pra dar o espetáculo de charme e graça ao passar o guardanapo em volta da boca e na bochecha. Ela fica com calor e prende o cabelo de qualquer jeito com um pauzinho mas, que incrível, parece que ela acabou de sair de um salão de beleza com um penteado feito pro enterro da Rainha da Inglaterra. Ela entra no ônibus como quem sobe na carruagem. O motorista paralisa diante de tão incomum aparição, ela sorri e diz bom dia, e ele acorda com uma buzina lembrando que já é hora de tocar o veículo.
Ela não é menos espontânea do que eu, nem você. É que ela é espontaneamente assim mesmo. Ela é assim e ninguém ensinou, porque elegância é dom de Deus. Não se adquire, não se veste, não se aprende. Qualquer uma que tente imitá-la fica esnobe, ridícula, meio caricata. Ela é assim e nem sabe que é assim. E quando alguém comenta, ela sorri e cora. Charmosa, poderosa, linda.
“Pensou que eu não vinha mais, pensou
Cansou de esperar por mim
Acenda o refletor
Apure o tamborim
Aqui é o meu lugar
Eu vim”
(Chico Buarque)
Uma carioca de sotaque nordestino: resumindo bastante um quarto de século, chega-se a essa definição. Explicando sem muitas delongas, mas com boa vontade, o problema é que ela nasceu no Rio pra ser carioca, mas teve esse direito arrancado de si. Seus pais, tão excessivamente cuidadosos, já não viam qualquer poesia na cidade (coitados!), a protegendo de tudo que fosse grande demais para que eles pudessem enxergar. Alguém já viu a grossura da linha que separa proteção de privação? De qualquer jeito, eles sabiam que um dia um muro de tijolo muito alto na rua das Turquesas não seria alto suficiente. Então a levaram pra uma pequena província nordestina, onde ela aprendeu a falar oxe, comer acarajé e preferir forró com zabumba. Mesmo assim, faltava um não sei o quê. Pode perguntar pra quem estava lá, todo mundo percebia.
Ela vinha ao Rio e não via o Rio. Era visita de família, não era cariocagem. Era passeio no shopping, na rua só de carro, casa de tio, aniversário de madrinha, natal, ano novo... O Rio era tédio, mesmice, chatice, caretice. Era aquele lugar onde as tias se juntavam pra dizer como ela cresceu, mesmo muito depois dela ter parado de crescer. Resolveu que não ia mais ao Rio e ia continuar crescendo longe mesmo. Mas ainda faltava, e todo mundo continuava percebendo. Até que um dia ela percebeu também.
Faltava a Portela, que sempre esteve tão pertinho do Madureira Shopping e ela nunca tinha sambado lá. Faltava saber que ali se pega um trem pra Central do Brasil. Faltava ver que entre a Glória e o Catete tem um louco que se veste de mulher e desfila o dia todo com salto alto e muito talco na cara. Faltava descobrir que se atravessar todas aquelas ruas do Aterro do Flamengo, chega-se ao lugar onde Escobar morreu afogado antes de ter traído Bentinho ou não – e que lugar mais lindo pra se morrer afogado! Faltava descobrir que na General Glicério tem uma feirinha todo sábado com banda de chorinho, que na Riachuelo tem o Clube dos Democráticos, que no alto da favela Tavares Bastos tem um albergue chamado The Maze onde gente cult se junta pra ouvir jazz toda primeira sexta-feira do mês. Faltava descobrir que o carioca da Urca é elegante por natureza, do jeito elegantemente despojado que somente um carioca sabe ser, discutindo a venda de uma Honda XRE e a compra de uma lancha, de bermudão e chinelo, tomando uma cerveja na calçada, enquanto o sol mais lindo e laranja do universo se põe ao fundo, elegantemente. Faltava saber que no Posto 9 gente sarada joga futevôlei a espera de ser descoberta e convidada pra estrelar a próxima temporada de Malhação. Faltava entender que boemia é muito mais do que Chico tomando chope no Leblon e algo menos do que mendigo bêbado caído nas escadarias da Lapa. Faltava ver gol do Flamengo no Maracanã. Faltava decorar sem querer os sambas do Cartola, as letras da Gaiola das Popozudas, e aprender a conjugar o verbo explanar com todas as entonações possíveis.
E quando tudo isso deixou de faltar, nem parecia que um dia faltou. Era como se nada fosse novidade, nem mesmo no exato momento da descoberta. Não houve muita euforia, nem deslumbramento. Foi tão discreto que, quando ela percebeu, simplesmente não faltava mais. No fim das contas, de algum jeito, ela sempre esteve ali. Porque ela nasceu pra ser carioca, e carioca ela sempre vai ser. Ainda que, por charme ou costume, não consiga parar de dizer oxe.
- Buona sera, bimba!
- Oi, amore! Que saudade... Mal podia esperar por esse jantar.
- Anche io, mio cuore... É um piacere cozinhar pra você, bella bambina mia!
- Ai, eu me derreto toda com esse seu italiano... Fala mais, vai...
- Cosa volete che io parli, principessa?
- Ai, não sei, qualquer coisa...
- Posso parlare di non aver mai amato nessuno così tanto!
- Aaaaai, que lindo, meu amor! Eu também nunca amei ninguém tanto assim.
- Tu sei la più bella principessa del mondo!
- E tu sei o italiano mais gostoso desse universo, meu amor!
- Voglio trascorrere tutto la mia vita con te!
- Eu também, ragazzo, eu também! Vamos casar no Vaticano, passar a lua de mel em Veneza, fazer compras em Milão...
- Come volete, bimba.
- Vamos ter dois bambinos: Alonzo e Pietra.
- Si, si, due belli bambini.
- Ai Dio mio, como eu te amo, meu amor!!
- Quer mais vino, piccola?
- Claro, claro.
- Salute!
- Saúde, amore mio!
- Un pezzito di pau?
- Anh?
- Pau.
- Pão!
- Isso, principessa. Pau.
- Pão. Aaaaaaão. Repita comigo: ão.
- Au.
- Aaaão.
- Aaal.
- Como se fala pão em italiano?
- Pane, principessa.
- Então fala pane mesmo.
- A pizza é pronta, amore.
- Ai, eu aaaamo pizza! Que cheiro bom, bambino! É de quê?
- Marguerite.
- É minha preferida, meu amor!
- Bon appetit, bimba.
- Mas amore... tem ketchup?
- Chè?
- Ketchup... ai, como se diz ketchup em italiano? Não sei... ketchup, pomodoro...
- Mas já há molho na pizza, principessa!
- Eu sei, mas eu gosto com ketchup também.
- Mas prova o molho primeiro.
- Por que? Eu sei que vou querer ketchup de qualquer jeito.
- Ma chè!
- Ma chè o quê?
- Não precisa de ketchup!
- Mas a pizza é minha, sou eu que vou comer, eu como do jeito que eu quiser!
- Mas foi io que fiz la pizza! Com tanto carinho para te!
- E eu agradeço e vou comer tudinho! Mas só como pizza com ketchup.
- Cazzo! Ninguém vai botar qualcuno ketchup na mia pizza!
- Não é na sua, é na minha! Deixa de ser chato, que saco!
- Questa è una mancanza di rispetto per il cuoco!
- Num to entendendo nada, querido. Fala em português e me dá o ketchup.
- Non há ketchup!
- Então não como a pizza!
- Ma chè?!
- É isso mesmo.
- Sei uma bambina molto mimada! Tutto deve ser come tu vogli!
- Mimado é você, seu filhinho de mamãe.
- Cosa parla acerca di mi mama??
- Parlo que ela te criou cheio de frescura. Metido!
- Non parlare della mia famiglia, porca putana!
- Porca putana é o cacete, bambi de merda!
- Bagachia! Zoccola!
- Enfia essa pizza no rabo!
- Fuori di casa mia!
- Com muito piacere, idiota!
- Vaffanculo!
- Vai você!
Mau humor. De fato, a situação tá ruim assim mesmo, como parece. O tempo está acabando, o cerco está fechando, não há muito o que fazer a não ser esperar por um milagre que vai jogar a vida pra onde eu quero que ela vá, já que eu mesma tô a um passo de largar o guidão. To irritada, to estressada, to chateada, to incomodada, to fechada, to ignorante, to reclusa, não to de TPM, to no banho e o telefone toca.
- Alô.
- Tá de mau humor né?
- Como você sabe?
- Eu conheço o seu alô mal humorado.
Medo.
- É que eu tava entrando no banho.
- Só isso?
- Não. To de mau humor.
- Mas vai melhorar agora!
- Por que?
- Porque amanhã a gente vai na Mangueiraaaa!
- Q?
- Mangueiraaa!
- FAZER O QUÊ??
- É festa de lançamento do samba-enredo do carnaval do ano que vem!
- É?
- É!
- É perigoso andar lá de noite!
- A gente vai cedo.
- E como a gente vai voltar?
- Não volta!
- Não volta?
- Não volta! Sambamos até de manhã e voltamos quando estiver claro.
- Até de manhã?
- ATé de manhã! Alvorada lá no morro, que beleza... Ninguém chora, não há tristeza... Ninguém sente dissabor... - Então vamo! - Formô!
- Formô!
- Amanhã te ligo, então!
- Valeu!
Graças a deus que, dentre tantos lugares no mundo pra eu estar desesperada, eu estou desesperada no Rio. E em ótima companhia...
Amo cidade grande. Amo o caos e corre-corre do centro de cidade grande. Amo o contraste, a loucura, os desencontros e as surpresas do centro de cidade grande. E, além disso tudo, o Centro de Buenos Aires tem charme.
Os prédios que dão a impressão de se estar em Barcelona, mesmo pra quem, como eu, ainda não teve a sorte de ir a Barcelona. As fachadas art nouveau tão conservadas que parecem ter sido construídas anteontem, ou parecem que os anos 20 foram anteontem e eu estive lá tomando vinho com Carlos Gardel. As multidões de porteños cheios do charme e elegância de quem perdeu posição econômica, mas ainda mantém a espinha ereta. Porteños...
Porteños: futebol, política e mullets
Aliás, sabe por que os homens porteños usam mullets? Porque podem. Duvido que qualquer outro ser humano no mundo fique bem com esse corte de cabelo. Mas, impressionantemente, esses lindos príncipes esbeltos, alvos e de olhos azuis, continuam charmosos mesmo com aquela sobra de cabelo nonsense na nuca.
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Obviamente o Maradona é uma exceção.
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Eu tirava foto de uma pintura tosca escrita Mi Buenos Aires Querido numa banca de jornal, quando um velho desconhecido parou perguntando se eu era brasileira, se torcia pro Flamengo, se conhecia Brasília. Não que ele estivesse necessariamente interessado em alguma resposta, porque falou sem parar sobre Buenos Aires e Brasil num castelhano até bem fácil de entender e, depois de uns dez minutos de monólogo, disse que estava muito apressado e foi embora, me deixando com cara de “anh?”.
Pelo menos dentro da minha experiência, o senhor falante não foi uma exceção. Os porteños que cruzaram meu caminho me pareceram simpáticos, educados e prestativos. Nada daquele mito do arrogante nojento que circula por aqui.
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E é de tardezinha que os protestos começam na Plaza de Mayo, na 9 de Julio, na Cordoba, em todo lugar. Contra a corrupção, aumento de qualquer coisa, falta de moeda, injustiça social, perigo no trânsito, bueiros abertos, sucateamento de alguma faculdade, não importa. O porteño sempre tem um motivo pra fechar uma rua e organizar uma passeata. Eles carregam faixas, pintam a cara, gritam, berram, cantam, batucam e pouca gente dá atenção. Aparentemente, grupos de protesto ficaram tão banais nas avenidas do Centro de Buenos Aires, que passam batido pelos não engajados. Estes andam pelas ruas desviando de passeatas no caminho como quem desvia dos dançarinos de tango que se apresentam na rua Florida em troca de gorjeta dos turistas. De certa forma, é meio triste.
Coisas estranhas
Era uma vez, um planeta muito distante chamado Azazel. Um belo dia, alguns dos seus habitantes foram selecionados para a nobre missão de espalhar o caos e a destruição na Terra. Após ganharem corpos e formas humanas, seguiram dentro de um foguete para o centro de treinamento chamado Brasil. Por algum descuido, o foguete acabou caindo em um buraco negro conhecido pelos terráqueos brasileiros como Aracaju. Apesar do ambiente extremamente desfavorável, a família Azazel vingou, cresceu e dispersou-se. Hoje podem ser encontrados em vários pontos estratégicos do mundo, cumprindo a nobre missão para a qual foram enviados. De vez em quando, por acidente ou destino, acabam se cruzando em locais aleatórios e improváveis.
E foi assim que eu andava tranqüilamente nas ruas de Buenos Aires, quando ouvi um “Hola!”, virei pra ver, e era a Marcela.
Quem já viajou pro exterior sabe a frescurada que eles têm no aeroporto com negócio de líquido. Não pode levar nada na bagagem de mão que contenha mais de 100 ml. Se contiver menos de 100 ml, beleza, mas tem que vir dentro de uma sacolinha transparente que você adquire no próprio aeroporto. Se nunca entendi qual é a lógica dessa sacolinha transparente, hoje em dia entendo menos ainda.
Quando passei minha bolsa pelo raio X, identificaram um perigosíssimo frasco de Rexona roll on que eu tinha esquecido que tava lá. O cara disse que eu não poderia embarcar com aquilo sem a tal sacolinha transparente. Eu disse que ele podia ficar com o desodorante, que tava com preguiça de voltar no guinche da GOL pra buscar sacolinha. Aí ele passou um rádio pra uma superior que chegou usando LUVAS pra manipular meu tão perigoso Rexona roll on. Ao verificar que se tratava realmente de um desodorante, não de uma bomba, a mulher disse que eu deveria arrumar uma sacolinha transparente pra botar o Rexona dentro. Pela milésima vez, eu falei que NÃO QUERIA IR BUSCAR SACOLINHA NENHUMA, PODEM FICAR COM O REXONA, ME DEIXEM EM PAZ AAAH! No que a moça vira e diz “Você não tem nada aí na bolsa pra botar o Rexona dentro? Nem uma nécessaire?” Eu tinha uma nécessaire. “É transparente?” Era meio que transparente. “Serve!” Aí a maluca botou o Rexona dentro da minha bolsinha de maquiagem, botou a bolsinha de maquiagem dentro da minha bolsa de mão, passou a minha bolsa de mão pela esteira do raio X e, pronto, estou liberada pra seguir em frente. Perguntei se eu não poderia tirar o Rexona da bolsinha de maquiagem nunca mais. “Somente quando sair da área de embarque, senhora.”
Gente, como assim?? Rexonas explodem se estiverem fora de sacolinhas transparentes na área de embarque internacional? Não resisti e fui ao banheiro testar. Tirei o desodorante de dentro da nécessaire e não explodiu. Embarquei com ele fora da nécessaire (vejam como sou rebelde) e, além da super emocionante sensação de estar cometendo um ato contraventor, nada de anormal me aconteceu durante o vôo. Será que isso é algum tipo de superstição das companhias aéreas? Se for, pode avisar que já testei e não procede. No dia 11 de setembro de 2001 certamente havia algo além de desodorantes fora de sacolinhas transparentes naqueles aviões.
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Auto-controle no Duty Free
Eu não preciso de um pó da Lancôme. Eu não preciso de um pó da Lancôme. Eu não preciso de um pó da Lancôme. Eu não preciso de um pó da Lancôme. Ta barato. Mas eu não preciso de um pó da Lancôme. Nem de um lápis MAC. Ta muito, muito barato, mas eu não preciso de um lápis MAC. Não preciso de um lápis MAC. Nem de um pó da Lancôme. Não preciso de um 212 Sexy Carolina Herrera. Nem de um lápis MAC. Nem de um pó da Lancôme. EU NÃO PRECISOOOO!! AAAAH QUE HORAS O VÔO SAAAI?????
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Waiting Room
Odeio gringo velho com cara de tarado. Quanto mais gringo e quanto mais velho, mais cara de tarado e mais eu odeio. Gringos deveriam morrer todos aos 35 anos de idade. E os que engordam e ficam carecas, antes.
Antigamente ir ao dentista era sinônimo de dor e tortura. Lembra daquela musiquinha (FANTÁSTICA) que o Steve Martin cantava sobre as alegrias de ser um serelepe dentista sádico no (FANTÁSTICO) filme A Pequena Loja de Horrores? Então.
Mas hoje em dia as coisas estão modernas e a anestesia fortíssima que eles aplicam sem nenhuma prudência deixando a sua cara inteira dormente por 50 horas não permite mais a mesma emoção. Então o dentista precisa se divertir de alguma maneira alternativa, não é mesmo? É justamente por isso que eles enchem a sua boca de ferro e algodão e começam a fazer muitas e muitas perguntas. Claro que não são perguntas que você possa responder com "sim" ou "não", balançando a cabeça ou levantando o polegar. São perguntas como "E seu pai, como está?", "E seu irmão, se forma quando?", "E você, viaja quando?", "Mas e o presidente das Honduras, hein, que situação. O que você acha dessa história toda?", "Você prefere Beatles ou Rolling Stones?"...
E o mais legal é que o meu dentista faz a pergunta, dá ele mesmo a minha resposta, argumenta contra a minha (?) opinião e no final (claro) sempre vence a discussão (?). Isso me irrita TANTO que, sinceramente, eu prefiro os velhos tempos do sadomasoquismo.
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Anedota do dia:
Um brasileiro, visitando Buenos Aires, sai para passear com seu amigo argentino, que o leva para conhecer o famoso Obelisco. Maravilhado, o brasileiro, comenta:
- Que belo monumento! Olha só o tamanho!
O argentino pergunta:
- Sabes o que foi usado de modelo para fazê-lo?
- Não imagino algo tão grandioso... - responde o brasileiro.
- Foi o meu pau! - diz o argentino, com um sorrisinhosacana.
O brasileiro saiu puto da vida com o cara, esbravejando. No dia seguinte ele telefonou para o amigo e combinaram de encontrar-se na mesma praça. Quando o argentino chegou, viu o brasileiro com mais 10 pessoas, todos de mãos dadas, circundando o obelisco.
- O que é isso? O que vocês estão fazendo? - pergunta o argentino, curiosíssimo.
E o brasileiro, com a cara mais cínica do mundo:
- Estamos tentando calcular o tamanho do cu da tua mãe!!!
Riu? Não importa. Foi só pra criar um clima pra comunicar que estou indo pra Buenos Aires Y Montevidéu amanhã. Se deus quiser, daqui a dez dias estou de volta com muitas bizarrices pra contar. Meu mochilão tá pronto e minha camisa da seleção brasileira está esticadinha no cabide, esperando pra pisar nas terras do Maradona com a maior cara de "Hasta la vista, Copa!"
Ela gosta das coisas do mundo, é verdade. Mas vício mesmo só um: acabar de chegar. No torpor do acabar de chegar, as cores são fluorescentes, os objetos saltam, os rostos são lindos, as pessoas interessam, os sonhos são possíveis, o abismo é flutuante, toda boca sorri, todo olho brilha, todo barulho canta e a música entra no estômago, e vai subindo até os neurônios, e faz a cabeça explodir de vontade de abraçar o universo. Quando acaba de chegar ela é rica, é alegre, é corajosa, é linda, é dançarina, é rainha, ela pode tudo, ela sabe tudo, ela vai com tudo, ela ama tudo. Ela grita, ri, gargalha, lembra da saudade e até a saudade é boa. Cada membro que se move pra qualquer lugar que seja é um orgasmo. E ela não precisa de nada, nem de você, porque ela tem o mundo.
Quando o efeito vai desbotando, só sobra a vida mesmo como ela é. Mas quem tem um vício, só o tem porque a vida mesmo como ela é não serve. Dói. Espreme. Irrita.
Felizes os que podem ficar. Ela está sempre indo porque só conhece a paz quando acaba de chegar. Onde, é o de menos.
Pra Chris, que padece do mesmo mal e também está sempre chegando.
Arlequina e Colombina estão dançando ignorando o resto da festa.
Mané se aproxima da Arlequina.
Mané (sorrindo):
Oi.
Arlequina (séria):
Oi.
Mané:
Vocês são lésbicas?
Arlequina (perplexa):
Hein?
Mané:
Vocês são lésbicas?
Arlequina:
O QUÊ???
Mané:
VOCÊS SÃO LÉSBICAS???
Arlequina (PASMA):
Pergunta a ela!
Mané (se dirigindo à Colombina):
Vocês são lésbicas?
Colombina:
!
Mané:
Não são não né?
Colombina (com a simpatia e o carisma que deus lhe deu):
Cara, como assim?
Gente, que abordagem é essa???
Isso não é jeito de puxar assunto
com uma mulher, menino!
Mané:
Ah, eu já vi tanta coisa nessas baladas
que nem duvido de mais nada!
Colombina:
Não interessa! Isso é muito feio!
O jeito certo de começar uma
conversa sempre é "oi, tudo bom?"
Onde já se viu um negócio desse?
Eu hein! Dá uma volta,
volta aqui e tenta de novo!
Mané:
Ok.
30 segundos depois...
Mané:
Oi.
Arlequina:
Oi.
Mané:
Tudo bom?
Arlequina:
Tudo.
Mané:
Meu nome é Mané.
Arlequina:
Meu nome é Arlequina.
Mané (abraçando a Arlequina com cara de pedreiro):
Nem me lembrava a última vez que tinha ido a um aniversário de criança. Acho que eu mesma era criança, provavelmente. Mas dessa vez não pude escapar e tive que responder à chamada na festa de dois anos do meu priminho. Pior ainda: nas DUAS festas, porque além da pequena reunião familiar pra ver Papai do Céu na novela, também rolou um babado num salão cheio de firula.
Gente, as coisas mudaram bastante desde os tempos do cajuzinho e croquete hein? Hoje em dia salão de festa infantil parece o Tivoli Park! As crianças andam de trenzinho voador e cabum, os garçons fazem gracinhas e servem empanados de camarão com catupiry e docinho folhado de chocolate branco da Cacau Show, os adultos jogam bilhar... Que que isso! Mas não pude deixar de observar que três coisas continuam iguais ao que eram há 20 anos atrás. Não sei se é tradicional de família suburbana ou de festa de criança em geral, mas sei que elas estavam lá:
Salgadinho agridoce. Isso pra mim sempre foi um mistério. Ninguém, absolutamente NINGUÉM, gosta de pastel de carne moída com passas e açúcar. Ninguém gosta de bacon com ameixa dentro da empada. Por que esses salgadinhos horrendos insistem em aparecer nas mesas? Eles sempre ficam jogados no pratinho até o serviço de buffet começar a escacear. Aí alguma mão distraída acaba catando um por engano e a mesma mão retorna o petisco pela metade porque ninguém quer comer inteiro. Ou então a gente encontra vários desses partidos com as duas metades lá, porque sempre tem alguém que diz "Oooolha o que será isso aqui? Deixa eu partir um pedacinho pra ver... ECA! CARNE MOÍDA COM AMEIXA, QUE NOJO!" Toda mesa de festa tem um prato com esses salgadinhos rejeitados completamente mutilados. E o buffet nunca desiste de inclui-los no cardápio. MISTÉRIO.
A guerra das lembrancinhas. Aqueles enfeites que decoram as mesas também são um mistério pra mim. A idéia é que cada família convidada tenha direito a um, mas nunca rola assim. Tudo bem que eles têm ficado cada vez mais criativos, mas gente... POR QUE SE FAZ TANTA QUESTÃO DE ENFEITE DE MESA? Será possível que toda festa tem que ter uma briga de família seríssima porque o enfeite da mesa da tia fulana é mais bonito, na mesa da tia ciclana tem três enfeites ao invés de um, o tio beltrano tá levando enfeite pro filho dele que nem veio, etc etc? E quem gosta de verdade MESMO de ficar colecionando souvenir de festa de aniversário de dois anos? Acho o cúmulo da pobreza, prontofalei.
Tricotagem. No mais, o básico sempre rola. Quem tá mais gordo, quem tá mais magro, quem tá sumido e só aparece em festa, quem deu cria, quem morreu, que tá mais bonito, quem tá uma moça, quem chegou de namorado novo, quem tá mal vestido, quem tá de escova mal feita, quem bebe demais e faz barraco. No fim das contas, acho que só mudou mesmo o cenário. Pelo menos foi pra melhor. Agora salão de festa tem até sinuca, veja que coisa! Só pelo fato de ter tido o que fazer durante o show do mágico, já fiquei feliz. Melhor ainda com docinho da Cacau Show. :)
Nesse fim de semana fui a uma feijoada duma galera universitária descolada em clima de paquera. Já tinha ouvido falar de um cara figuraça que estuda com esse pessoal e é famoso por tomar remédio controlado e falar verdades com licença poética. Foi de fato um enorme prazer conhece-lo pessoalmente, principalmente por causa do episódio que presenciei.
Uma das meninas da turma está grávida e começou a botar barriga agora. Quando ela chegou, imediatamente formou-se aquela roda de mulher em volta fazendo festinha, palpitando sobre o sexo do neném, querendo saber se chuta, se dá enjôo, se dá desejo, se engorda, etc etc. No que o tal carinha invade a conversa surpreso com a novidade e exclama: "Que liiiiiindoooo! Você tá graaaaaávidaaaa! Eu não sabiiiiaaa!". A mamãe orgulhosa abriu aquele sorrisão e apresentou o namorado, provavelmente esperando que ele também fosse congratulado pelo feito.
Mamãe: Olha, Asdrúbal, esse aqui é o meu namorado!
Asdrúbal: Você é o pai da criança?
Papai (meio sem-graça, meio orgulhoso): Sou...
Asdrúbal (seríssimo, encarando o papai): VOCÊ ESTÁ ESPALHANDO O MAL. O MAL!
Então virou as costas e saiu.
Todo mundo ficou com cara de bunda naquele clima "cri. cri.", que se desfez numa risada coletiva logo em seguida. "Aaaaaah esse Asdrúbal vem com cada uma né gente? Só ele mesmo! Rá rá rá!"
Eu ri. Mas ri querendo dizer que compreendo, que concordo, que acho certo, que ele é a pessoa mais sábia daquela roda de conversa, que loucura é procriar num mundo como esse. Como, infelizmente, a licença poética naquele recinto não era minha, deixa falar quem pode.
"Eram três horas da tarde. Peguei um tamborete e me sentei. O garçon apareceu. Cara de solitário. Não tinha sobrancelha nenhuma. Cruzinhas verdes pintadas nas unhas. Um tipo maluco. Não havia como evitá-los. A maior parte do mundo estava doida. E a parte que não era doida era furiosa. E a parte que não era doida nem furiosa era apenas idiota. Eu não tinha chance. Só aguentar e esperar pelo fim. Era trabalho duro. O trabalho mais duro imaginável." (Pulp - Bukowski)
Com tanto stress pra comprar ingresso pro jogo do Vasco, meu sábio inconsciente resolveu fingir que nada de pior poderia acontecer depois daquilo. Eu fiquei entorpecida com a felicidade de rever meu amigão depois de anos, conhecer a namorada fofinha dele, botar fofoca em dia, falar pra cacete. Quando acordei do transe já estava no Maracanã cercada de vascaíno por todos os lados e gritando mentalmente “MEU DEUS DO CÉU O QUE QUE EU TO FAZENDO AQUI?” Mas era tarde demais.
O Anderson queria ficar na arquibancada onde as torcidas organizadas se organizam pra cantar músicas, fazer ola, soltar balões e eventualmente distribuir porrada em quem estiver do lado, vascaíno ou não. Mas GRAÇAS A DEUS os ingressos esgotaram e triste foi sua frustração por não realizar o sonho de sentar na torcida mais amigável e boazinha de todas: a Força Jovem. Daí ele cismou que, como a gente só podia ficar nas cadeiras, tinha que ser exactamente em baixo DAQUELA arquibancada da FJ, “pra sentir a energia.” Tratei de pensar rápido e arrumar um jeito de convencê-lo a ficar do outro lado do Maraca, porque eu sei lá o que a doce e amistosa Força Jovem tinha preparado em casa pra tacar em quem estivesse em baixo, em cima, aos lados, na frente. Se fosse só morteiro e xixi ainda seria moleza, mas o futebol é uma caixinha de surpresa e nunca se sabe a novidade que vai aparecer a cada jogo. Então mandei o caô de “Poxa, Anderson, olha lá que maravilha de ângulo! É melhor ficar de longe, porque aí você vê todo aquele espetáculo da torcida: tambores, clarins, bandeiras gigantes com um mascote feio roubado descaradamente do Iron Maiden, ... Vai ser muito mais legal!” Colou.
Aí começou o jogo e eu pensei “Ah, é só uma horinha e meia, rapidão passa, não vou nem sentir.” Pra me distrair, observava o que acontecia em volta. Ao meu lado, uns coroas comportados perceberam logo que eu era peixe fora d’água ali, puxaram assunto, acharam bonitinho eu estar passando por aquilo em nome da amizade e foram bastante simpáticos. Na minha frente, uma mãe novinha torcia fervorosamente e dava várias explicações muito detalhadas sobre regras de futebol e história do Vasco pro seu filho adolescente. Achei bonito. Já na cadeira de trás, um moleque com uns dez anos e sem nenhuma mãe mostrava que, além de já saber muito sobre futebol e Vasco, ele também era profundo conhecedor de palavrões e xingava toda sorte de impropérios imagináveis.
Aí o Vasco faz gol. Gritos, urros, batuques, abraços, Anderson tirando a camisa e girando no ar feito um maluco, e eu lá com cara de “É... gol, né...” A mesma cena se repete três vezes e eu sem saber onde botar a mão, o pé, a cara. Ressaltando que o time adversário era o Ipatinga, então goleada não é mais que obrigação, ok? Mesmo assim, é muito estranho estar num lugar onde TODOS vibram por um motivo em comum MENOS VOCÊ. Lembrei da sensação de quando tive que ir a cultos da Igreja Universal na época da minha monografia. Naquele caso era cool ser diferente, afinal eu era uma estudiosa, uma pesquisadora, uma intelectual. Mas ali eu era apenas uma flamenguista no meio de uma torcida do Vasco e isso não é NEM UM POUCO cool. E pra tudo ficar AINDA MAIS divertido, o moleque da boca suja farejou a minha presença e ficou fazendo provocações, gritando pros urubus que sobrevoavam o estádio: “Vai pra casa, urubu filha da puta! Flamenguista vai tomar no cuuuuú!” Ignorei. A gracinha foi piorando ao longo do jogo e lá pro meio do segundo tempo ele se esgoelava cantando uma música sobre o Flamengo ser time de “puta, viado e ladrão.” E eu fiz cara de “q!” e os coroas do meu lado riram e Anderson riu e a namorada dele riu e eu quis que um morteiro voador da FJ caísse em mim e me matasse.
Mas sobrevivi e cheguei em casa crente que tava abafando com a minha história. Acontece que as meninas que trabalham na loja do meu primo me desbancaram. Uma era macaca velha de Maracanã e a outra iniciante. Trajando lindas camisas oficiais do time, resolveram ir ao jogo de ônibus, partindo de um ponto EM FRENTE À SEDE DA FORÇA JOVEM. Segundo elas, o buzão estava tão cheio e zoado, que tinha gente em cima (EU DISSE EM CIMA!) do veículo. Daí a polícia pára a algazarra no meio do caminho, desce todo mundo, mão na parede, passam mais dois ônibus em semelhante condição, são parados também, aí sai confusão, aí sai tiro, aí elas saem correndo e de algum jeito conseguem chegar ao estádio, mesmo atrasadas. Não satisfeitas, as donzelas ainda sentam na arquibancada da FJ. Até que a bonitinha que nunca tinha ido ao Maraca - portanto não conhecia os hinos da torcida - toma um pescotapa dum malaca porque não está cantando, e resolve se mudar pra arquibancada branca. E o Anderson achando que pra ficar na FJ de boa era só aparecer com a cruz de malta no peito. Vai sonhando, paulista!
Aaaaah a paixão do brasileiro por futebol, hein... Que bonito é, né gente? Mas pra mim já deu, enchi o saco! Não quero ouvir falar de futebol nunca mais na vida até a Copa do Mundo, valeu?