4.21.2008

 
"Fredo, you're my older brother, and I love you. But don't ever take sides with anyone against the Family again. Ever." (Michael Corleone)

Falo mal dos meus amigos. Não por inveja, despeito ou – como gostávamos de dizer aos 15 anos de idade, mesmo sem compreender o peso real dessa palavra – falsidade. Falo mal porque eles são cheios de defeitos, porque me contrariam, porque nem sempre me dão a atenção suficiente pra satisfazer as necessidades dos meus caprichos. Falo mal como quem fala dos tios, primos, irmãos, mãe, pai. Falo mal porque posso, porque sou da famiglia.

A primeira vista, não temos quase nada em comum e quem vê assim, de fora, não entende que ponto nos prende nessa união sem qualquer compromisso. Eu também não entendo, só sei que a família é grande, de deixar qualquer italiano com inveja. Tem a avó que cuida de todo mundo, a mãe que se mete na vida de todo mundo, o pai que acorda de madrugada pra resolver problema na balada, o irmão mais velho que tem ciúme do namorado da irmã mais nova, o cunhado folgado que continua freqüentando a casa mesmo depois de terminado o casamento, os irmãos caçulas que animam mas dão trabalho, os primos distantes que só aparecem nas festas e, quando se juntam com os caçulas, todos sabem que alguma merda vai acontecer, coisas serão quebradas e alguém vai acabar numa ambulância. Têm aquelas outras famílias que são amigas e têm aqueles núcleos que são mais próximos uns dos outros. Mas todos se juntam em casamento, batizado, aniversário de criança e enterro. Adoro esses eventos!

E de vez em quando alguém traz convidados. Geralmente todos são bem vindos, desde que respeitem as regras da casa. Temos nossa própria ordem e não gostamos que tirem nossas coisas do lugar. E com freqüência descobrimos que algum eventual convidado é um parente distante nosso, errante no mundo, longe dos seus. Quando isso acontece, ele é prontamente acolhido e dificilmente se perde de novo.

Nossa afinidade é tão grande que de vez em quando esquecemos que precisamos interagir com o mundo fora do nosso clã e que a lógica universal geralmente não funciona que nem a nossa. Quando somos convidados (ou intimados) a comparecer em eventos de famílias estranhas, que às vezes até trazem o nosso próprio sangue e sobrenome, ficamos como o estrangeiro bizarro no canto da festa que sequer entende aquele idioma. Mesmo quando entendemos, somos o estrangeiro exótico que desperta curiosidade dos demais acerca da vida além mar. Mas uma coisa é certa: nossa entrada não é USB.

Então eu posso falar mal dos meus amigos, porque podemos falar mal de pai, mãe, irmão, tios, tias, primos. É só entre a gente e é só porque a gente se ama. Mas, veja bem, não vá pensando que você pode.
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4.20.2008

 
1/4 de século.


E hoje já posso até dizer expressões como "há vinte anos":

Sou amiga da Michelly há vinte anos.
Morei no Jardim América há vinte anos atrás.
Entrei na escola há vinte anos atrás.
Comecei a gostar de fantasias há vinte anos.


Estou idosa.
posted by Arlequina @ 5:00 AM   0 comments
 





4.15.2008

 

Ele é um especialista em diagnósticos capaz de descobrir a cor da calcinha que a sua mãe estava usando durante a sua concepção, só de olhar a radiografia do seu dedo mindinho. E faz o possível pra chegar a essa conclusão sem precisar ter o menor contato com você. Ele não faz perguntas pros pacientes e tampouco lê o histórico médico de ninguém porque acha que é inútil. Afinal de contas, ele baseia a sua lógica em uma única verdade: everybody lies. Everybody, principalmente os seus pacientes moribundos. Já chegou a prescrever cigarro pra um doente. "Mas, doutor, cigarro não vicia? Não agride o corpo?". "Qualquer remédio que eu te receitar vai viciar e agredir o seu corpo. A diferença é que cigarro custa mais barato e eu não vou precisar ver a sua cara todo mês pra te dar uma prescrição nova. Todos saímos ganhando." E de vício ele entende. Não satisfeito em ser dependente de Vicodin, um analgésico fortíssimo composto de morfina, Dr. House já chegou a fingir que tem câncer terminal, deixando seus colegas de trabalho loucos de preocupação, só pra ser cobaia no teste de uma nova droga pra aliviar a dor de vítimas de tumores malignos. A única preocupação da vida do Dr. House é descobrir doenças misteriosas e salvar seus pacientes, custe o que custar. Tipo assim... custe o que custar MESMO. Ele mente, trapaceia, engana a direção do hospital, obriga a sua equipe a vasculhar a casa dos doentes internados sem autorização de ninguém, toma processo (e de vez em quando toma até umas porradas) de pais e mães desesperados, faz exames invasivos, cirurgia sem anestesia, já chegou até a injetar sangue contaminado em si mesmo só pra ter certeza de que o paciente não estava fingindo os sintomas. Dr. House é essa mula inconseqüente porque trata os doentes como meras embalagens que contém o verdadeiro desafio que o interessa: a doença. Se você olhar com muita atenção, vai perceber que ele de vez em quando deixa escapar um pinguinho de sentimento humano, mas na maioria dos casos, Dr. House funciona bem porque faz de tudo para funcionar como uma máquina. Objetividade acima de todas as coisas.

Órfão de Seinfeld e as garotas Gilmore, o meu imaginário comemora a recém-descoberta de um novo amigo: Dr. Gregory House. O meu encontro diário com esse médico monstro tornou-se tão necessário pra mim quanto o Vicodin é pra ele. Tenho muito ódio quando ele passa dos limites da insensibilidade e maltrata os outros just for fun. Tenho muita pena quando ele acaba vivendo uma situação que o obriga a encarar o verme solitário que ele é. Tenho muita vontade de amarrar ele numa cadeira e encher ele de beijo e carinho (porque só amarrando pra conseguir obrigar o Dr. House a receber qualquer contato humano que seja).Tenho crises de risos com as tiradas sarcásticas que ele sai disparando em todas as direções. Tenho momentos de reflexão tentando entender a maneira fascinante como ele enxerga a humanidade e como a humanidade o enxerga. Adoro quando o ego dele toma tapa na cara da equipe, dos pacientes, da chefe, da ex-mulher e do seu melhor e único amigo Dr. Wilson. Inclusive, foi Dr. Wilson o portador da verdade cruel que fez House implorar por morfina direto na veia: "Você não gosta de si mesmo. Mas você se admira. Você se agarra tanto no que te faz especial porque acha que é isso que faz de você um ótimo médico. Cresça, House. Ser infeliz não é o que faz de você melhor do que ninguém." Nesse dia, só o Vicodin não foi suficiente. Ele invadiu a sala da diretora do hospital implorando por uma injeção de morfina, alegando uma dor insuportável na sua perna aleijadinha. Dra Cuddy prontamente atendeu à súplica, fazendo com que o Dr. House dormisse feito um anjo nos braços do João Pestana... pra revelar no dia seguinte que ela não era maluca de injetar morfina num viciado, que aquilo era soro e o bestão caiu no velho conto do placebo. Rá!

Em pensar que tive tanta resistência pra começar a acompanhar aquilo que eu achava que era só mais uma série de hospital... É vero que a minha cultura inútil aumentou estrondosamente depois que comecei a acompanhar House. Hoje, por exemplo, sei que toda doença parece Lupus (But it's never Lupus...), que uma pessoa obesa nem sempre é uma gulosa preguiçosa (ela pode ser diabética ou ter a raríssima Síndrome de Cushing), que o primeiro exame que se faz pra descobrir toda sorte de doença é a ressonância magnética, mas por algum motivo ele nunca é confiável o suficiente, então o mais seguro a se fazer é a uma punção lombar (que dói pra cacete). Mas lá pro terceiro ou quarto episódio, você percebe que as doenças e o hospital são meros coadjuvantes desse show. A estrela do espetáculo é a complexidade das relações humanas e o medo constante de falhar, fraquejar, odiar e amar.

No meio da superficialidade da televisão, com um toque a mais de imbecilidade da cultura enlatada americana, eu poderia dizer que pago um pau pro criador desse personagem tão complexo e pros roteiristas que seguram o rojão lançando um episódio toda semana há quatro anos, sem perder a essência dessas histórias fantásticas com muita intensidade e pouquíssima pieguice. Mas eu pago um pau mesmo é pro Dr. House. Pago pau assim, como se ele fosse meu vizinho, como se ele fosse o plantonista ali do São Lucas, como se a qualquer momento eu pudesse ficar doente de alguma causa misteriosa, tivesse que correr pro hospital e ele estivesse lá pra me salvar. É aí que eu percebo que um personagem realmente me cativou e me lembro do quanto a fantasia televisiva pode ser poderosa e interferir diretamente na vida das pessoas com parafusos a menos que nem eu. Agora me vejo diante de alguém que está todos os dias na minha casa me fazendo repensar minha maneira de ver o mundo e as relações humanas. No mais, só posso dizer a ele aquilo que todo paciente curado tem vontade, mas quase nunca tem oportunidade, porque raramente o vê cara-a-cara durante ou depois do tratamento:

Thank you very much, Dr. House.

E ele provavelmente responderia: "Who the hell are you?? You know what? Nevermind... I don't care."

-

House networking....

Ficou curioso? Entre pro fã clube você também. Eu baixo House aqui. Pra mim é melhor do que torrent porque minha conexão não é essas coisas todas. A vantagem é que vem mais rápido e o computador não fica pesado. A desvantagem é que só pode baixar um por um e tem que fazer o download de uma barra de navegação do megaupload, se não eles sempre dizem pra tentar mais tarde.

Aqui tem as melhores sacadas de cada um dos episódios, mas acho que não tem muita graça se você não é familiarizado com o perfil dos personagens. Ah, tá tudo em inglês.

E a propósito... me identifico com tudo. Com a exceção do último ítem, porque eu também sou o Wilson do meu próprio Wilson, portanto dou valor a ele sim. :P
posted by Arlequina @ 5:59 AM   0 comments
 





4.13.2008

 
"Se você é jovem ainda jovem ainda jovem ainda..."

Eu sempre soube que não tenho mais idade pra ir em concurso de banda cover na ATPN. Mas po... eu posso não ser mais adolescente, mas ainda não tenho condições financeiras pra ver shows das minhas bandas preferidas de verdade. Então me consolo com os covers, fazer o quê? Só que nunca me senti tão tiazinha como ontem.

Estava eu tranqüilamente tomando minha cerveja com a minha amiga Brabs, igualmente over vinte, quando passa um grupo de moleque dizendo exactamente o seguinte: "Eta corôa bonita do caralho!". Eu explodi numa crise de riso e de nervoso, com a realidade sendo passada assim, na minha cara, de maneira tão cruel e aleatória. Brabs não entendeu (ou fingiu não entender) e ficou com a cara blasè perguntando do que eu tanto ria. E eu sem conseguir parar de rir pra repetir a pérola. Mas o garoto não se fez de rogado. Ao perceber a minha dificuldade, ele fez QUESTÃO de voltar e explicar pessoalmente pra minha amiga: "Eu disse 'eta coroa bonita do caralho'." E ainda acrescentou: "Quer ficar comigo? Eu já tenho 18!" Como se não bastasse, outro do grupo ainda tentou passar a perna no amigo falando "Não, po, fique comigo, eu já tenho 19!".

MAS COMO ASSIM, BIAL???

Não sei se os moleques acharam que realmente a melhor maneira de cantar uma mulher é chamando ela de coroa gata (pior que isso, só "gordinha gostosa") e que o "elogio" iria surtir efeito OU se tavam simplesmente tirando onda com a nossa cara. Sei que minha amiga ficou tão deprimida que tomou a atitude mais rock and roll high school possível: encheu a cara até vomitar e ficar caída no chão. Aí sim ela tinha entrado no clima... Quem visse não dava mais de 16! Eu que continuei sendo a coroa da festa, aquela que dá bronca, segura o cabelo da bebada enquanto ela vomita, compra água e providencia carona pra ir embora. E ainda tive que procurar assessoria de Raphael. E se existe um lugar onde EU e Raphael somos as pessoas mais responsáveis do recinto, realmente tem alguma coisa funcionando muito errado na Matrix.

Ok, minha vida é deprimente. Mas isso está prestes a mudar, eu juro!!!

Mas do róque... po, do róque eu vou ser pra sempre, cara... Se Mick Jagger pode, porque não eu? \m/
posted by Arlequina @ 10:24 AM   0 comments
 





4.10.2008

 
"A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti." (Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway)


Por Quem Os Sinos Dobram
(Raul Seixas)

Nunca se vence uma guerra lutando sozinho
Cê sabe que a gente precisa entrar em contato
Com toda essa força contida e que vive guardada
O eco de suas palavras não repercutem em nada

É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro
Evita o aperto de mão de um possível aliado...
Convence as paredes do quarto e dorme tranqüilo
Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo

Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz
Coragem, coragem, eu sei que você pode mais
(Muito mais!)


-

Andiamo...

posted by Arlequina @ 6:00 AM   0 comments
 





4.03.2008

 
Seguindo os conselhos da minha mãe, as histórias abaixo serão narradas com nomes fictícios. Mas os personagens e situações, por incrível que pareça, são reais.

O destino e suas fanfarras

Quem freqüenta este blog há certo tempo deve ter notado que eu cresci no Rio de Janeiro e, aos 11 anos de idade, fui arrancada do subúrbio coração da cidade maravilhosa para ser despachada nessa remota cidadezinha no interior da Bahia capital de Sergipe. Onze anos não foi tempo suficiente pra que eu criasse uma grande afinidade com ninguém, mas tive uma amiga de infância que resistiu ao tempo e às mudanças e até hoje faz parte das seletas pessoas mais importantes da minha vida. Vamos chamá-la de Jurema.

Jurema tinha um amor platônico de criança que foi crescendo junto com ela até virar aquela paixão monstruosa de adolescente que traumatiza nossa existência. Apesar de nunca ter visto a cara do rapaz, acompanhei com muitos detalhes todo o impacto que ele causava no coração e nos hormônios da minha amiga. Seja por carta, por telefonemas, ou nas minhas visitas semestrais ao Rio, ela sempre tinha alguma novidade pra contar sobre o (vamos chamá-lo de) Romildo.

Pelo que me parecia, o Romildo era daquele tipo de cara que carregava o carma de ser lindo, mas estava reprovando no teste. Sabe aquele naipe que aproveita a beleza da PEOR maneira possível? Daquele tipinho que acha que ser bonito já é suficiente e, por conta disso, não precisa ser absolutamente mais nada na vida? Pois é, ele não estudava, não trabalhava, não lia, não fazia porra nenhuma. Sua única atividade era gastar a mesada que recebia do pai (orgulhosíssimo da cria, por sinal) com baladas e motéis, arrasando corações por aí afora. Esse, claro, era o julgamento que EU fazia, de acordo com os depoimentos nada imparciais da minha amiga Jurema. Só sei que o Romildo era um verdadeiro filho-da-puta e, por aqueles motivos que só os psiquiatras e pastores explicam, a Jurema não conseguia tirar esse encosto da vida dela.

-

Lá pelos meus 16 anos, numa dessas viagens ao Rio, fui passar um fim-de-semana na casa de uma prima mais nova. Querendo me entreter, ela me convidou pra conhecer o Fórmula, uma boite bombante da zona leste carioca. Como não tinha nada a perder, vamo nessa né? Na pior das hipóteses, renderia uma história. Chegando lá, me arrependi imediatamente. Pra começar, era uma matinê. Três, quatro anos não somam uma grande diferença de idade, mas aos 16 esse tempo é um verdadeiro abismo. A ponto de, na flor da minha adolescência, eu me sentir a TIA do recinto. Fora as músicas. Veja bem... funk carioca não começou no Bonde do Tigrão. Essa desgraça existiu desde sempre e eu, como carioca suburbana da gema (porém, “roqueira, com atitude, estilo e personalidade”), não me deslumbrava com as letras inusitadas, nem atribuía nada daquilo a um fenômeno sócio-cultural. Pra mim era música ruim e ponto final. E naquela época as letras nem eram tão engraçadas assim. A maioria falava sobre aquele cara que só quer ser feliz e andar tranquilamente na favela onde nasceu.

No tédio dessa fenomenal balada, entre hormônios ululantes descolados em clima de paquera, localizei um cidadão que desfalcava tanto do ambiente quanto eu. Um deus grego, pra falar a verdade. Lindo, loiro, alto, forte, olho verde, bem vestido. E estava LONGE de ser sub-15. Muito pelo contrário. Aquilo lá já devia ter idade até pra comprar cerveja nos Estados Unidos. Me perguntei o que ele poderia estar fazendo ali. Pagando promessa? Levando o irmão mais novo pra passear? Pesquisa de campo antropológica? Sei que pra minha surpresa AND alegria, ele começou a me dar mole. Muito mole. Chegou puxando assunto. Um assunto meia—boca, na verdade, mas quem se importa? Era um deus descendo do Olimpo com a missão de salvar minha noite. Não precisava dizer mais nada. Até que a parte cristã do meu cérebro foi ativada e eu lembrei que um mês antes de viajar pro Rio, havia entrado pro submundo das moças de família. Pois é, eu estava me iniciando nesse negócio de namoro sério e compromisso, com um aracajuano que só serviu pra pintar a primeira mancha no meu currículo. Mas até então ele era o amor da minha vida e eu não queria cair em tentação logo no começo do resto de toda nossa existência juntos. Ainda bem que essa existência só durou 9 meses, mas pra mim foi uma eternidade. Enfim.

Infelizmente tive que dar tchau pro deus grego, mesmo com muita dor no coração. Ele insistiu, insistiu... mas fazer o quê? Contrariando meu espírito ariano, eu sou fiel. Então fui catar minha prima e suas amigas pra ir embora daquela versão suburbana de Malhação, mas a desgraçada tinha sumido. E eu com cada vez mais ódio no coração, dando voltas e mais voltas ao redor da boite sub-15, nada de achar minha prima, música ruim alta dos infernos, pré-adolescentes bêbados por todos os lados, o desespero aumentando, as pernas formigando até que, ploft, tropecei e caí de JOELEO no chão. ÓTEMA maneira de encerrar o começo de noite. E eu nem tava bêbada. Levantei sem olhar pros lados pra não correr o risco de ver a pirralhada toda rindo da minha cara, ainda por cima. Daí surgiu uma mão cavalheira na minha frente, oferecendo ajuda para me erguer do vexame. Era o deus grego.

- Não fica sem graça não, gatinha...
- Tarde demais, hehehe
- Que nada, acontece...
- Comigo acontece com muita freqüência. Já to acostumada, sou muito estabanada.
- Aí, ta vendo só? Acho que é o destino que fez a gente se encontrar de novo...

Ok, a cantada era feia, mas quem se importa? O cara era lindíssimo AND gentil. Só que eu ainda tinha o mesmo namorado que tinha há meia hora atrás. E tornei a dispensar. Até que ele me puxou pelo braço e disse, com todo aquele sotaque carioca cafageste:

- Vem, cá, gata... Você ta me dispensando, mas é só porque tu tem namorado mesmo né? Você é muito apaixonada por ele, né?
- Anh?
- Porque, tipo assim... Se tu não tivesse namorado tu não ia me dispensar não né?
- Que?
- Porque, pô... tu me achou bonito, não achou? Hein? Hein?

Ai minha nossa senhora das vaidades! O cara provavelmente nunca tinha tomado uma dispensada NA VIDA e aquilo mexeu TANTO com o ego dele, que ele precisava ter CERTEZA de que eu SÓ não ia ficar com ele porque estava comprometida. Se fosse hoje em dia eu cairia na gargalhada e faria uma piada de meia hora de duração, mas naquele tempo, o melhor que consegui pensar foi:

- Nem tanto. Meu namorado é muito mais bonito.

Nem era, mas porra... Pelo amor de deus né? Brochada total. Pelo menos me ajudou (BASTANTE) a resistir à tentação de trocar uns fluidos salivares com ele. Passou tantas vezes na fila da beleza que esqueceu de passar na da auto-estima? O cara precisa ser idolatrado e comer todas pra garantir a auto-afirmação? Ah, vai pastar, mané!

-

No dia seguinte, fui correndo na casa da Jurema narrar a minha matinê bombante. Ela ouviu toda a história estranhamente séria e no final perguntou qual era o nome do indivíduo. Eu disse que nem sabia se ele tinha falado, mas que mesmo que tivesse não lembraria e tal... Enquanto isso ela foi na gaveta, puxou um álbum, me mostrou a fotografia de um loiro sarado de bermuda e perguntou: “Por acaso é esse aqui?”

CARALHOS VOADORES! Não é que o cara era o Romildo??? Brother, qual é a probabilidade disso acontecer?? Eu encontrar o amor da vida da minha melhor amiga numa MATINÊ do OUTRO LADO DA CIDADE e ele dar em cima de mim DUAS VEZES?? A explicação da Jurema foi imediata. Segundo ela, ele adora menininhas de 13 anos, então não tem nada de surpreendente no fato dele freqüentar as matinês mais badaladas do momento. Mas pô... mesmo assim... Ainda acho que a probabilidade de eu ter ganho na mega-sena era maior do que de ter vivido essa situação GROTESCA, até porque eu nem tinha cara de 13 anos. E ainda serviu pra confirmar a minha opinião sobre o Romildo: um retardado. Mas o pior é que a Jurema ficou chateada COMIGO! Depois passou, ela viu que realmente não tinha o MENOR CABIMENTO ficar magoada por isso. Foi apenas mais uma piada do Senhor do Destino que, pra quebrar o tédio, me enfiou em mais uma cocó, como ele sempre faz.

Bem, os anos passaram e hoje minha amiga é mãe de família, tem um marido ótimo e uma filha linda. Eu tenho um namorado maravilhoso e que, agora sim, é realmente mais bonito e gostoso do que o caçador de ninfeta. Quanto ao Romildo... Eu espero que aquele loser tenha sofrido um acidente e ficado careca, perneta e com a cara desfigurada. Zé Mané do caralho.
posted by Arlequina @ 9:55 AM   0 comments
 




il libretto

 

Rss


"Em qualquer terra em que os homens amem. 
 Em qualquer tempo onde os homens sonhem.
 
                                                        Na vida."

Máscaras - Menotti del Picchia

 

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