3.16.2012
Galway Girl
 

É semana do Saint Patrick’s Day e a minha INCRÍVEL viagem pra Irlanda tem apertado meu coração de saudade. Esses dias andei pensando nas pessoas que conheci e nas micro-histórias que vivi, algumas como espectadora, outras como protagonista.

Cliffs of Moher
MUITO mais legal de longe, acredite.
Uma delas foi a minha passagem por Galway. Fui atraída pelas promessas de encantos irresistíveis da segunda maior cidade da Irlanda. Queria ver a estonteante beleza dos Cliffs of Moher, o charme dos pubs pequenos com rodas tipo de choro só que de folk, as tais ruas sinuosas com cara de Idade Média, a atmosfera de festa e cultura, etc e tal. O que encontrei foi um frio que me obrigou a comprar roupas novas, uma chuva fina que piorava o frio, um sol tímido que ia embora completamente às 4 da tarde e uma Downtown bem sem gracinha. Os Cliffs of Moher eram lindos, coisa e tal, principalmente vistos de dentro do centro de turismo, cujas paredes de vidro permitiam o wanderlust e ao mesmo tempo evitavam que o vento mais poderoso do universo me carregasse pra Oz.

A vista mais bonita de Galway :D
Mas os dois dias em Galway não foram de todo ruim. Além das rodas tipo de choro só que de folk serem sim, muito simpáticas, todos os pubs vendiam pint de Hoegaarden - a minha cerveja preferida - pelo módico preço de DOIS EUROS. E foi no quarto coletivo de um hostel em Galway que encontrei Emily, a francesa.

Quando entrei no quarto não vi ninguém, mas vi resquícios de que já tinha uma roommate: uma cama desfeita, muita roupa espalhada por todas as outras 5 camas feitas, maquiagem coloridíssima e outras coisinhas de moça espalhadas pelo banheiro, pacotes vazios de comida e uma garrafa cheia de vodca (ambos proibidos nos quartos, de acordo com as regras do hostel) espalhados na varanda. Entrei no banheiro pra tomar um banho quente e quando saí me deparei com a figura, que já foi estendendo a mão e me dizendo com um sotaque francês fortíssimo:

- Olá, eu sou a Emily. Estou indo a um pub e em seguida a um night club. Quer vir?

A minha resposta foi a resposta padrão de todas as viagens que faço:

- Claro. Por que não?

Era não era bonita, mas também não chegava a ser feia. Tinha uns traços árabes e um cabelo muito cacheado e desarrumado, que se agrupava num montinho meio Black Power bem estiloso. Não era assim gooorda, mas poderia ser assim, uma Brastemp, sabe como é? Um pouquinho de carne sobrando e nenhuma curva pra alinhar. Como eu sei detalhes sobre a anatomia da Emily? Porque ela saiu pela rua num frio de -2 graus e sensação térmica de WTF, usando confortavelmente sandálias de salto, calça jeans e uma blusa CURTA e TRANSPARENTE. Pois é, não satisfeita em mostrar a barriga, Emily precisava mostrar também o soutian. De renda. Roxo. Eu juro que pensei ser resistente ao frio, mas o vento de Galway e as roupas da Emily sambaram na minha cara.

No pub que ela escolheu (onde um DJ tocava hip hop e nenhuma roda tocava música irlandesa), Emily me contou que não gostava de cerveja - mas gostava que os homens pagassem drinks bem docinhos pra ela - que era de Paris, estudava Psicologia, tinha 23 anos e estava passando as férias em Galway.

- As férias INTEIRAS?

- Ouí, inteiras.

- Em Galway?

- Em Galway.

- Mas você não vai conhecer outros lugares e tal?

- Não, 15 dias seguidos aqui em Galway mesmo.

Diante da minha reação COMPLETAMENTE EMBASBACADA, Emily me explicou que se apaixonou por Galway na primeira vez que esteve lá, o halloween do ano anterior. Ela disse que foi com uns amigos e se divertiu tanto, que voltou assim que teve oportunidade pra se divertir de novo. Mesmo sem amigos, sem halloween, sem festa, sem sol e sem gostar de cerveja nem de música irlandesa. Perguntei como ela estava preenchendo os 15 dias de férias numa cidade minúscula e chuvosa. E ela me respondeu como se fosse muito óbvio: “Procurando um namorado irlandês, oras.”  e deu um gole no seu drink de morango, açúcar e vodca.


O plano de Emily era se embebedar em algum pub de música pop, partir pra uma balada de música ruim e dançar com as mãos pra cima mostrando a barriga até as 6 da manhã. Nesse meio tempo, ela procurava um homem irlandês que pagasse bebidas e a pedisse em casamento.

- Ah, eu queria um cara bem resolvido, com seu próprio flat, um emprego, e que possa pagar a minha passagem pra que eu venha pra Galway pelo menos de dois em dois meses. E que vá à Paris me visitar também, claro.

Claro. E com certeza este homem seria encontrado dando mole numa balada de Galway, doido pra casar com uma francesa maluca. Lógico. Era só uma questão de paciência.

- Mas por que você vem procurar isso EM GALWAY?

- Ah, os franceses são muito imaturos.

Como eu não tinha os mesmos objetivos da Emily e precisava acordar cedo no dia seguinte pra congelar nos Cliffs of Moher, resolvi pular o nightclub e voltar pro hostel. Emily foi sozinha mesmo.

Botei meu despertador pra tocar às 6:30 da manhã. Mas minha roommate me acordou às 6:15 chegando da balada. Ao contrário dela, o sol ainda não tinha chegado. Perguntei se ela tinha encontrado o príncipe encantado celta. Ela disse que foi SEDUZIDA por um cara que jurou ser irlandês e com alguns minutos de conversa se revelou TURCO. Mas, já que tava lá, dormiu com ele. Afinal de contas, ela ainda tinha dez dias de férias pra cumprir sua missão.

Essa foi a última vez que vi a Emily. Quando voltei dos Cliffs, já estava escuro novamente e ela já havia partido pra sua busca. No dia seguinte voltei pra Dublin antes dela chegar e fiquei sem saber se a missão marido irlandês foi cumprida.  

Eu, que nem gosto de sol, lamentei por Emily ter resolvido gastar os 15 dias das suas férias no escuro, em busca de uma viagem que não vai se repetir, sonhando em encontrar alguém que transformasse a sua vida. Na verdade, não lamentava por ela. Lamentava pelas vezes que eu mesma me joguei na escuridão, me apegando a momentos passageiros e desejando qualquer príncipe encantado pra matar o dragão do meu TÉDIO.

Agora penso em Emily e desejo de coração a mesma coisa que desejo pras minhas amigas mais queridas. Que elas tenham luz o suficiente pra iluminar a própria vida e nunca terem que andar no escuro buscando a luz alheia.


Fica com Morrighan, Emily. :)

posted by Arlequina @ 3:23 PM   0 comments
 




il libretto

 

Rss


"Em qualquer terra em que os homens amem. 
 Em qualquer tempo onde os homens sonhem.
 
                                                        Na vida."

Máscaras - Menotti del Picchia

 

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By Julia
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Homem é Tudo Palhaço
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