Mulheres em tom pastel têm cabelinho liso, natural ou não, o importante é que seja discreto e bonito. Às vezes é até vermelho, mas aquela coisa castanha-quase-natural-com-reflexos-vermelhos-que-só-dá-pra-ver-no-sol. Mulheres em tom pastel vivem dizendo que morrem de vontade de pintar o cabelo de vermelhão um dia, mas ainda não tiveram coragem. Mulheres em tom pastel morrem de vontade de fazer um monte de coisas que ainda não tiveram coragem.
Algumas são tão ousadas, mas tão ousadas, que têm coragem de fazer até tatuagem. Daí fazem três estrelinhas atrás da orelha, letrinha japonesa atrás do pescoço, beijaflorzinho na canela. Essas tatuagens de mulheres em tom pastel.
Elas são românticas. Adoram poesias que arrumaram em algum site qualquer na internet. O autor não é importante, o importante é a beleza da mensagem. E a mensagem pode ser qualquer coisa que fale de amor e da paz mundial. Elas têm atitude, por isso repetem frases inéditas como "Mulheres boazinhas vão para o céu. As más vão pra qualquer lugar".
Mulheres em tom pastel são bem fáceis de se agradar, porque elas são sorridentes e acham graça de qualquer coisa. Se você perguntar sobre o gosto musical de uma mulher em tom pastel, com certeza ela vai te responder algo como: "Ah, sou eclética, eu gosto de tudo". Elas dizem que não tem preconceitos, curtem todos os estilos. Mulheres em tom pastel são tão ecléticas que gostam até de rock paulera que aquele pessoal de preto escuta, vejam só!
Mulheres em tom pastel são cristãs ou kardecistas, porque é algo mais atual e inteligente. Mas respeitam a diversidade religiosa.
Mulheres em tom pastel fazem piadinhas fofinhas e sempre explicam "olha, foi brincadeira, tá!". Não seja sarcástico com uma mulher em tom pastel, porque você pode ferir os sentimentos dela e faze-la chorar até o dia seguinte, coitada. Mulheres em tom pastel dizem que são sensíveis porque pra elas, sensibilidade é isso: se magoar fácil e chorar à toa.
E elas adoram chorar em filme. Choram vendo sessão da tarde, ou qualquer coisa que vá de Holywood diretamente pro Cinemark. As mais cultas não perdem um lançamento toda semana, seja ele qual for. Afinal, elas se dizem cinéfilas.
Mulheres em tom pastel são boazinhas, engraçadinhas, fofinhas, carinhosas, copreensivas, falam baixo, riem baixo, são companheiras, alegres e todo mundo gosta delas.
Mas eu prefiro ter um yorkshire.
1.03.2007
Certa feita, meu amigo Daniel me trouxe dos States um chaveirinho em forma de ursinho castanho. Uma fofura de ursinho, meigo, sorridente e sadomasoquista. Sim, o ursinho vem vestido com traje sadomasô completo, composto de venda, espartilho, algemas, cuequinha fio dental e correntes. Uma graça. Pendurei o singelo bichinho na minha mochila companheira. Uma piadinha discreta e engraçadinha. Um belo dia estou eu tranqüilamente no ponto de ônibus quando senta uma moça do meu lado carregando sua filha de uns quatro, cinco anos de idade. E não é que a garotinha se encantou com o meu urso sadomasô? "Ooooooooolha, maaaaaaaãe, que bonitiiiiinho! Um ursiiiinho!". A mãe já estava quase concordando no que vê os detalhes do ursinho. Ela era daquelas pessoas que têm a desvantagem de ser muito brancas, portanto nunca conseguem disfarçar o constrangimento: o sangue começa logo a subir pra cabeça e se espalhar pela cara, denunciando a sem-gracisse em uma grande mancha vermelha-fogo.
- É, filha (hehehe) é uma gracinha sim (hihihi). Deixa aí o chaveirinho da moça, tá!
- Oooolha, mãe, ele tem ooooóculos!
(e a menina não largava o urso de jeito algum)
- Ahahah, veja só que coisa! Crianças não são fáceis, né (hehehe)? É, tem óculos... Larga o chaveirinho da moça, larga...
- E tem calciiiinha!
A essa altura todas as pessoas do ponto formavam uma comunhão de constrangimento, rindo e se cutucando. E a menina nada de largar o chaveirinho. Aí passou o ônibus. Eu entrei e a moça não. A menininha ainda disse "Tchaaau ursinhoooo!". Então eu balancei o ursinho como se ele desse tchau pra ela. A mãe me olhou com cara de "queime no fogo do inferno!" Ninguém mandou ter uma criança pervertida.
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Mas essa história é melhor. Numa das indas e vindas do seu relacionamento, minha amiga Mi tava na merda porque tinha terminado seu noivado pra sempre (como sempre). Então as colegas do trabalho resolveram fazer uma graça e lhe deram um vibrador lindíssimo (pelo menos pra quem gosta), uma réplica perfeita do que seria um modelo real top de linha. E o ritual de tira-amiga-da-fossa prosseguiu com um choppinho e uma esticadinha pra uma boite de funk dessas quaisquer na zona leste do Rio. Acho que era Via Show, sei la. Whatever.
Sei que a minha amiga não chegou a passar em casa, então logicamente foi com a mesma bolsa pra boite. E, como é de praxe, as bolsas são revistadas na entrada das boites. Mesmo que mal e porcamente revistadas, só se dá uma olhadinha lá pra ver se não tem nenhuma moça carregando uma AR-15 ou uma bomba atômica. Mas ao que parece, um consolo chama tanta atenção como qualquer objeto mortal. Daí a segurança pegou e disse (alto, muito alto): "Meu deeeus, o que é issoooo???". Logo todos os seguranças e as pessoas que esperavam na fila da revista faziam uma roda em torno da minha amiga e sua bolsa mary poppins, curiosíssimos com tamanha excentricidade. E ligavam e desligavam o objeto (era eletrônico, ainda por cima) que rebolava de um lado pro outro na mão das "autoridades" inconvenientes.
- É o que eu to pensando?, perguntou um segurança.
E minha amiga quase cavando um buraco no cu pra enfiar a cara:
- É. Por que? Não pode entrar com isso não?
- Poder, pode. Mas por qual motivo uma moça já sai de casa com um negócio desse?
- Pra garantir que a minha noite vai terminar bem de qualquer jeito. Agora dá licença?
Então ela enfiou o consolo na bolsa e entrou na boite com a cara pra cima, linda e loira, arrasando no funk. Por isso que eu gosto tanto da Mi. Mesmo com dor de cotovelo, a cara no chão e um consolo na bolsa, ela não perde a pose. Nunca.

